Thursday, November 29, 2007

Capitalismo de merda

Tudo que tem início tem um fim. A história da humanidade nos provou que todos os ciclos econômicos um dia chegaram ao limite de suas possibilidades e contradições. Na era primitiva, isso aconteceu quando o homem começou a acumular riquezas. O feudalismo chegou ao limite quando foi impressa a primeira edição do Kama Sutra, contando todas as formas diferentes que a nobreza tinha de fazer sacanagem. Mas como chegaria ao fim a era capitalista?

Segundo os teóricos anti-capitalismo, o sistema se apóia no eterno e fundamental conflito de classes. O fim do capitalismo, então, aconteceria quando a tensão entre riqueza e pobreza se tornasse insustentável. Fica claro que essa galera não entendia nada e por isso o socialismo foi pra banha. O capitalismo se sustenta no consumo voraz. O consumo básico vai existir sempre, então o que gera a insanidade consumista é a novidade, o diferente. Fica, pois, claro, pelo menos pra mim, que o capitalismo só vai cair, quando as pessoas não tiverem mais o que comprar e comprarem qualquer merda.

E você achou que não ia viver para ver esse dia chegar. Comunistas, comemorai! Juventude universitária chata pra caral** do PSTU erguei-vos, porque o capitalismo americano chegou ao fundo do poço! Mike Tyson está vendendo potes de merda na Internet e tem gente que compra! Veja.

No site Celebrityskin.com, qualquer cidadão do planeta pode, por apenas U$ 31,00, comprar um pote com fezes do ex-atleta. Especula-se que estoque não seja problema, a questão é saber se a demanda acompanha a oferta. Agora, imagina se a onda pega e Bush, Kléber Leite, Ben Stiller e o Partido dos Trabalhadores se unem a Tyson para formar uma grande holding no segmento. Não sei se o mundo sobrevive a tanto fazedor de merda junto, comercializando o que fazem melhor e em maior quantidade.

Tuesday, November 20, 2007

Os 100 filmes que eu não posso deixar de ver

Conforme prometido, segue a lista de filmes que EU não posso deixar de ver. Se eu fosse você, não perderia também. Se você não entendeu de onde surgiu essa lista, clique aqui.

As 7 faces do Doutor Lao
Allan Quatermain e a cidade do ouro perdido
American Pie
Os Aventureiros do Bairro Proibido
Barrados no Shopping
Batman Begins
Bonitinha, mas ordinária
Braddock
Os Caça-fantasmas
Caçadores de Emoção
Caravana da coragem
Cegos, surdos e loucos
Círculo de Paixões
Comando para matar
Um convidado bem trapalhão
Corra que a polícia vem aí
O Corvo
Crazy People
Crocodilo Dundee
Curso de verão
Curtindo a vida adoidado
A dama do lotação
De Volta para o Futuro
Debbie & Lloyd
Os Deuses devem estar loucos
Dogma
Duro de matar
Elvira, a rainha das trevas
O Enigma da Pirâmide
Entrevista com o Vampiro
Espião por Engano
A Família Addams
Os fantasmas se divertem
A Fantástica Fábrica de Chocolates (o antigo, é óbvio)
Férias do Barulho
Férias Frustradas
Flashdance
Footloose
Forrest Gump
O Garoto do Futuro
Garotos Perdidos
Goonies
O Grande Dragão Branco
Grease
Guerra nas Estrelas - e sequências
Heavy Metal - Universo em Fantasia
Indiana Jones (todos)
Jovens demais para morrer
Jumanji
Karate Kid
Kill Bill
La Bamba
Labirinto
Loucademia de Polícia (todos)
O Mágico de Oz
Manequim
Máquina Mortífera
Matrix
Meia noite e um
Meu Primo Vinny
Midnight Madness
Monty Phyton (todos)
Um morto muito louco
Mulher nota 1000
Nova Iorque, cidade proibida
A Noviça Rebelde
Oscar - Minha filha quer casar
A Pantera Cor de Rosa (todos)
O Pestinha
Poltergeist
Porky's (trilogia)
A primeira transa de Jonathan
Um príncipe em Nova Iorque
A Quadrilha dos Sádicos
Quase famosos
Quero ser grande
Rambo - Programado para matar
O Rapto do Menino Dourado
Retroceder nunca, render-se jamais
Rockstar
Sem licença para dirigir
O Senhor dos Anéis
Os sete gatinhos
Sheena a rainha da selva
Sin City
Splash, uma sereia em minha vida
Superbad
Superman (todos)
Tango e Cash
Te pego lá fora
Team America
Um tira da pesada
Top Gang
Top Secret
Trânsito muito Louco
Os Trapalhões e o Rei do Futebol
Trocando as bolas
Tudo por uma esmeralda
O Último Dragão
Zoltan

Monday, November 19, 2007

Ossos do O(ri)fício

Bolei. Adriane Galisteu não pôde apresentar seu programa no SBT, fato ocorrido pela primeira vez desde 2004. Ok, ok... é claro que não foi por isso que fiquei bolado, afinal de contas, nem sabia que ela estava no SBT. Foi a causa: há coisa de 2 meses, Galisteu passou por uma cirurgia no reto (ou cu lírico, como preferir) e agora voltou a sentir dores.

Sério... eu poderia ficar duas horas aqui inventando factóides divertidos para justificar tanto a cirurgia quanto a recaída e confesso que muita sujeira passou pela minha cabeça desde que me sentei aqui para escrever. É um sentimento tão interessante ter tanta sacanagem diferente pra falar, é de uma riqueza tal que tantas opções chegam a me deixar confuso em meus próprios pensamentos. A coisa é tão forte que vez por outra eu simplesmente exclamo "CU!!!!" de forma espontânea, descabida e sem qualquer razão aparente no meio de todos e isso tem deixado as pessoas constrangidas ao meu redor.

Acho que jamais na vida tive tantas formas diferentes e simultâneas de sacanear uma mesma pessoa, porém vou deixar isso por conta das palavras da própria Adriane. Ela conseguiu ser melhor do que qualquer devaneio meu. Diz ela:

- Foi só um susto! Comecei a sentir dores de novo, mas tem a ver como estresse e com a vida que levo. (tá achando que eu to de sacanagem? Clica aqui e dá uma olhada na nota DE MOLHO - bem que podia ser DE OLHO, diz aí...)

Para adriane, eu dedico mais um momento:


Saturday, November 17, 2007

100 filmes que você deve ver?

O Blog Mente Aberta da Globo.com lançou uma lista daqueles que eles consideram os 100 filmes que você não pode deixar de ler. Dá uma conferida aqui. O livro sagrado da criação de listas, utilizado pela primeira vez entre os homens por Moisés, ao escrever os 10 mandamentos, oferece em seu prefácio uma recomendação a todos aqueles que estão decididos a ingressar nessa jornada. O texto traduzido do original em aramaico diz: "Se estiveres de fato disposto a criar listas, mantei su'alma desacansada e mente tranquila, porque tu farás merda. É inevitável. "

Pois bem... seguindo à risca o livro sagrado, a lista comete várias gafes. Não estou falando isso por eles incluírem o chatíssimo "As Crônicas de Nárnia", além de "Legalmente Loira" e "Jogos Mortais". Mas pô... como criar uma lista dessas e esquecer de obras importantíssimas da cinemateca internacional, tal qual "O Ultimo Dragão", "Os aventureiros do bairro proibido" e "Porky's" (a melhor trilogia da história)? Imperdoável, mesmo para o livro sagrado.

Em breve, será publicado nesse espaço a minha listagem dos 100 filmes que você não pode deixar de ver.

Friday, November 16, 2007

Ô Caetano, pára com iiiiiiiiisso!!!

Em determinado momento de sua carreira artística, Caetano Veloso foi levado ao Olimpo artístico-intelectual da sociedade brasileira. Quando se atinge esse patamar, o cara pode até dizer que quer dar pro Leonardo Di Caprio sem ficar reconhecido como bichona pela opinião pública - privilégio do qual o pobre Richarlysson não compartilha, coitado (sic).

A bem da verdade, eu sempre fui meio contrário à admiração cega sobre esse tipo de pessoa. Não sou de babar Caetano Veloso, não me furto a dizer que, apesar de grandes poetas, Chico Buarque e Bob Dylan cantam tão bem quanto, por exemplo, o José Roberto Wright, acho cinema europeu UM SACO e quero mais é que o time do São Paulo se foda com todas as 5 estrelinhas no rabo.

Pois bem, tá certo que a gente não fala nada quando não há porquê e não me nego em absoluto a gostar dos trabalhos dessas pessoas - não sou xiita também. Porém adoro quando vagabundo dá motivo. Estava eu sentado diante da tv, assistindo o malfadado Top TVZ. Depois de ver Beyoncé e suas coreografias de terreiro de macumba, Mariah Carey mostrar as tetas e achando que é gostosa e a Ciara dançando como Michael Jackson, não é que me entra um clip com Caetano Veloso sobre um palco cantando Rocks!!!

Sério, você já comeu melancia com molho de feijão, salpicados com noz moscada e soda cáustica? Pois é... soda cáustica, só no leite, falaí! Com vocal tropicalista (que lhe é característico, aliás, e funciona muito bem pro que ele vinha fazendo antes), trajes de professor de geografia, pulinhos de Gugu Liberato e guitarras meia-boca, você, um sujeito comum e cheio de dignidade, pode até conseguir um espaço no "Se vira nos 30". Não vai ter a menor chance contra o pitbull vestido de bailarina que assobia o hino do Botafogo, mas vai ter seus segundos de fama. Enquanto isso, direto do Olimpo para as telas do Multishow, Caetano faz um monte de zé mané babar e dizer que ele está reinventando o Rock nacional.

Tá certo que o Brasil está cheio de estúpidos convencionistas que batem palmas só porque meia dúzia de pseudo-entendido está batendo. A nossa sociedade é assim, ok, não reclamo porque aceito as regras do jogo (afinal, a torcida do Flamengo é a maior do Brasil e a que também tem o maior número de pessoas que não sabe escalar o seu time), mas alguém tem que fazer alguma coisa pelo cara. Um dia, quando tiver lá seus 80 anos (até menos) e não estiver chapado de Acarajé, ele vai colocar a mão na teste e dizer a si mesmo: Por que, meu Deus?!

Por isso, eu faço esse papel e, de coração, em respeito à sua história, eu peço: Ô Caetano, pára com iiiiiiiiisso!!!

Friday, August 17, 2007

Narradores e espectadores

Pergunta: Pra que serve o Galvão Bueno? Gente, a pergunta é séria, portanto, respostas como “Pra falar merda”, por mais óbvia que seja, por mais que eu concorde e por mais que ela de fato condiga com a realidade, não serão consideradas.

Sério... pra que serve o Galvão Bueno? Certas coisas estão de tal forma presentes em nossas vidas que não nos damos do que elas são. Me responda então: pra que você, amigo amante do esporte bretão e perfeitamente saudável no que se refere às suas faculdades visuais, precisa de alguém narrando exatamente o que você está assistindo na tv? E então, consegui fazer com que você se sinta um perfeito idiota? Se esse narrador for o Galvão, você passa a se sentir mais idiota ainda?

Estava lendo outro dia algo a respeito do discurso midiático e da relação de poder que se estabelece a partir do que se chama “definição da realidade”. Em linhas simples, a idéia aponta que quem tem o domínio do discurso, dissemina sua versão de realidade, quem se coloca na possição passiva, aceita e assume essa verdade como sua. Então, o narrador esportivo tem a incumbência de te dizer o que você está vendo e o comentarista (profissão mais fácil do mundo, uma vez que o sujeito é pago para olhar e criticar, sem ter o compromisso de interferir diretamente na disputa, seja jogando, seja comandando) de interpretar, enquanto você assiste e aceita. Mas aí você vai me dizer: “Ah... mas eu acho o Casagrande um imbecil. Quase nunca concordo com ele”. E aí, eu pergunto: e daí ?

O esporte é apenas um exemplo, mas o fato é que essa aceitação é uma tendência que tem se espalhado de forma assustadora. Acostumados a receber impressões prontas de narradores e comentaristas esportivos, simulações da realidade impostas por novelas, filmes e seriados e de toda uma programação midiática, cada vez mais nos contentamos em observar. Acompanhar a vida dos personagens até que é divertido, além de ser mais seguro, já que as consequências dos atos de cada um se desenvolvem somente na trama. E Veja esse seriado que temos agora: um senador federal vende benefícios a empreiteiras e demais corporações em troca de favores financeiros. Ele sonega impostos, deixa de declarar o que deve e a imprensa relata cada um de seus negócios nebulosos. Tudo isso num ambiente em que a literal compra de influência é institucionalizada como prática corrente e normal, jogando no lixo todos os princípios éticos que exige a representação da voz de um povo. “Que safado!”, pensamos e seguimos esperando que o mocinho da história tome uma posição e tire o sujeito de lá. “Um dia, o povo vai acabar com toda essa safadeza”.

Aí eu te faço mais uma pergunta: de que adianta você dizer que não concorda com o que “a mídia te impõe” e que tem a sua própria opinião, se o principal da história, que é observar sem interferir e aceitar que alguém se dê ao direito de instituir uma visão do real, ainda que você não concorde com sua opinião, você já aceitou? Ou seja, meu querido, você é o “imbecil do Casagrande”.

Monday, August 06, 2007

Como se faz

- Primeiro você chama os mateiros e os peões. Tem que ser gente de confiança, assassinos arrependidos que querem trabalhar honestamente com terra e gado; refugiados naquela terra escondida, cujo nome só sabem aqueles que moram lá.

Os leva mata adentro atrás do jirico ou pick up, com galões de gasolina bem cheios, depois de ter ‘encercado’ o gado.

Tem que ser no dia bem quente e no final da tarde. Confirmando a direção do vento, se está contrário ao aceiro e nunca a favor do vizinho, vai-se jogando gasolina no mato e nas moitas pequenas e acendendo com isqueiros Bic. Depois, é só cuidar para não passar o aceiro do vizinho. Tem que ficar ‘esperto’ pois o fogo pode ‘virar’ a qualquer momento.

E não precisa esperar anoitecer para ver o começo da atrocidade e ouvir os gritos de animais silvestres e das árvores sofrendo horrores com o fogo incontrolável. O barulho é horrível, a fumaça e calor sufocam mesmo quando distantes. Não escapa onça, não escapa cateto, não escapa anta, cervos, macacos, cabras, paca, quati, nada. Destruição de uma forma que poucos viram ou verão. Depois, silêncio e estalitos, árvores mortas, a brasa, a devastação.

Tem que beber muita água. Nem se sabe de onde é a água, mas ela é quente e ‘braba’, no dia seguinte dá febre e diarréia explosiva. Nem se sabe se é a água, ou a fumaça maldita, mas ninguém escapa da ‘doença do fogo’. Não tem problema, só dura dois dias.

Aquilo que era verde, com árvores que só poderiam ser abraçadas por mais de seis pessoas, com plantas magníficas não encontradas em nenhum outro lugar no mundo e fauna de parte de um paraíso, deixam de existir. É a formula do homem para que o céu sempre azul encontre na terra o cemitério da perfeição.

Nessa área nunca mais casais de araras azuis ou coloridas com seus gritos alegres aparecerão, ou urubu rei imponente ou a coruja cinza que avisa os habitantes da floresta que o homem chegou. Nessa área somente alguns tocos queimados mostram vida, o lugar fica escuro, dá a sensação de morte. Mateiros mais supersticiosos querem logo ir embora, para não serem castigados pelo ‘Pai da Mata’.

A terra, agora negra, ainda será habitada por um verde rasteiros das pastagens, o gado branco pastará, alguns cavalos correrão por ali, mas isso ainda vai demorar.

Agora tem que pagar os mateiros e peões, fazer recibo de R$ 15,00 para cada um, não perguntar o sobrenome da maioria para não levar tiro, já avisar que depois ‘da chuva’, tem serviço de ‘roçar a juquira’ – isso para fazer política e não arrumar inimizade com aqueles que podem te matar se achar que os reconheceu do Linha Direta.

Depois, tem que avisar o IBAMA que algum bandido ‘colocou fogo nas terras', dar queixa na delegacia, fazer toda a burocracia não só para não ser multado, mas também para não pagar propina para agentes diversos, desde IBAMA até do INCRA.

Meu pai tem terras lá em Aripuanã, MT. Faz divisa com a floresta amazônica...

Sunday, July 29, 2007

Mais uma inversão de valores

Provavelmente você já assistiu, já viu ou ouvir falar do ‘E! Entretenimento’, um canal de TV voltado para quem gosta de celebridades americanas ou ver mulher se expor vulgarmente ao ridículo. Se não viu, não está perdendo nada, a não ser saber quaisquer coisas (das mais idiotas até as mais estúpidas) sobre celebridades e ver um monte de gente mostrando peitos e genitais em “festas” que a programação filma mundo afora como sendo “as melhores do mundo” (imagine qual é “a melhor festa do mundo” aqui no Brasil).

Bom, se já viu, vai entender o que quero dizer sobre a programação diurna inútil, e a programação noturna imprópria, principalmente para um canal chamado “entretenimento”.

Acredito que tenham um bom ibope mostrando as celebridades como seres humanos ou até como pessoas normais, também acredito que os programas de fofocas sobre artistas, atores e similares lhes rendam bons ganhos com os anúncios, pois todos sabemos quão grande é o interesse das pessoas pelas vidas dos seus artistas preferidos, uma boa parte ávida não só por saber mas também para ter aquele gostinho de estar mais próximo do ídolo. Mas o que não dá para entender é : por que passar (e muitas vezes em horários impróprios) festas no mundo todo, com relatos de pessoas completamente desconhecidas que as classificam como “a melhor festa, ou a mais badalada do planeta”, mesmo quando todas, indistintamente, mostram sempre: mulheres mostrando os seios ou se beijando – já vi pênis de vários tamanhos e cor também - regadas a muita bebida, muita esfregação e cujo único intuito é sexo livre e com qualquer um, numa libertinagem sem tamanho. É a mesma coisa todas as noites, algumas vezes passa à tarde também: close em peitos, em bundas, homens dançando pelados, algumas garotas gritando “essa é a melhor festa do mundo”, outras se lambendo, homens se esfregando em algumas alcoolizadas, mais peitos aparecendo e alguns homens relatando que “não há melhor festa que essa em qualquer outro lugar do mundo”. Só que no dia seguinte, esse programa está em outro país, numa outra festa, mostrando exatamente a mesma coisa, quando não pior.

E eu me pergunto como é que uma coisa assim pode dar ipobe a ponto de ter essa programação todas às noites, muitas vezes de dia também?

Será que existem tantas pessoas com vidas tão medíocres, insignificantes, banais e desprezíveis que sentem tesão só de olhar genitais e peitos? Seria uma curiosidade dos mais velhos – aqueles aposentados e inúteis que não têm mais o que fazer - que querem saber como são as festas hoje? Será que é a tendência atual e eu sou uma velha rabugenta e moralista que não vê a necessidade, em uma festa, da mulher se colocar como um objeto de prazer, se portando sem um pingo de auto-estima e de forma tão mundana? Ou sempre foi assim, só que não televisionado, e eu, por estar num circulo mais pobre – onde divertimento em festa consistia em dançar, estar com amigos e no máximo ficar com alguém – jamais freqüentei festas dos quais o intento é sexo, cujo entretenimento está voltado unicamente para a promiscuidade?

Não acredito que isso possa ser uma normalidade, apesar de já ter freqüentado e muito a noite e conhecer bem pessoas que iam e até hoje vão a festas como caçadoras vorazes, selvagens que sem afeto, buscavam no sexo algum conforto, uma noite a menos de solidão. Mas nenhuma delas, nem nos piores inferninhos que freqüentei, com qualquer um que eu tenha saído e conhecido e ficado, expôs sua nudez como oferenda ao primeiro que chegasse, diferente de hoje, e nessas festas do ‘E! Entretenimento’. Uma pena.

Friday, July 27, 2007

Breve história da emetevê, como diria o amigo do ministro

Após anos no ar, a MTV desenvolveu um idioma televisivo muito peculiar. Foi a famosa linguagem videoclipe, feita de muitos cortes, tomadas rápidas, com imagens por vezes desconexas e aparentemente sem sentido. Funciona. Ajuda a distrair. Você ao mesmo tempo está assistindo algo, sem precisar sequer de dois neurônios para entender coisa alguma.

Parece também uma máquina do tempo. Na verdade, deveriam colocar televisões sintonizadas na MTV em repartições públicas, alguns bancos e, claro, aeroportos. Se bem que MTV há muito tempo deixou de ser sinônimo de música, quanto mais videoclipe.

Claro que esse processo não é algo tão simples assim. Cada célula do corpo, em estado de hipnose, se comporta como criança diante do corredor dos brinquedos. Tudo atiça desejos, uma verdadeira suruba platônica. Quem assiste, deseja. Quem é assistido, provoca. O máximo que pode.

Mas essa estratégia poderosa não foi suficiente. Vez por outra, algum revolucionário colocava um clipe da Legião Urbana ou quem sabe até um Neil Young no meio da programação. E algumas jovens mentes em gestação se perdiam. Então criaram os programetes. De início curtos, logo invadiram o restante da grade de atrações. Os cortes confusos e psicodélicos continuaram, dessa vez sem letra, sem música, apenas como intervalos para os intervalos comerciais.

Por mais estúpidas e cansativas que fossem, as atrações dominantes não enfrentaram contestações. Pelo contrário, a MTV planeja oficialmente extinguir os videoclipes. Zero riscos de qualquer infusão de pensamentos ameaçadores. Muita informação, nenhum conhecimento. Cortes a todo o tempo, nos intervalos de encenações patéticas, tendo como fundo a estupidez humana. A realidade é o Big Brother perfeito para a MTV.

Monday, July 23, 2007

Ora, e as passagens aéreas ainda vão subir.

Como se não bastasse medalhas jogadas ao leu, as passagens irão subir.

E os aeroportos estão lotados, filas descomunais; cansaço e comodismo mesclado nos rostos, o cheiro de impaciência misturado ao “bovinismo” característico do povo brasileiro, acostumado a ver pacificamente mais desastres, mais gente morrendo e... continuar na fila para pegar seu vôo. “Convenhamos, ir de avião é bem melhor”.

O governo garante: os preços vão subir e todo transtorno é válido, e é feito pela segurança aérea. Esquece-se que o avião da TAM já estava no chão. O problema não é nas alturas, é aqui, em terra, com gente que possivelmente nunca soltou pipa algum dia.

Mas quem vai dar o braço a torcer, e para que fazer algo? Descaso do governo, nossa mansidão vendo tantas omissões, a dor estampada na TV, o menosprezo ao ser humano, avareza das empresas, corrupção. Vemos isso em todos os setores, porque seria diferente agora? A fila continua, a fila anda.

Passivo de colocarem a culpa no piloto, também na repimboca da parafuseta do avião, ou simplesmente não responder nada para ninguém, como fizeram com o ultimo desastre que envolveu o Legacy – coitados dos americanos. Não há quem cobre, não há o que fazer.

Não importa, morreram mais de 150 ano passado, mais 200 agora, até ACM morreu, nada será feito para melhorar o esquema aéreo no Brasil assim como nada consegue tirar Calheiros do Senado. É muito dinheiro envolvido, muita gente envolvida e o pouco caso das pessoas, tanto como eleitores como passageiros. Pessoas que, no máximo, conseguem soltar uns gritos quando a câmera da Globo passa e pronto, já fez seu brilhante papel de mostrar seu ultraje.

Não quero falar e nem imaginar a dor dos que ficaram desse caos todo, não existe isso. Mas quero registrar que por um bom tempo eu não vou pegar avião algum e recomendo aqueles que forçosamente não precisam "plainar", que também o façam, pois quem sabe: sem fila, alguma coisa mude.

Thursday, July 19, 2007

Tempo pra tudo

É preciso uns 144 anos para se escrever uma trajetória de vida.
A cara de avô chega aos 70.
Com 65 (se você for homem) ou 60 (se você for mulher) é possível concluir uma vida profissional.
Aos 40, tem início uma fase que, na imensa maioria dos casos, dificilmente se sai vivo.
Em 30 anos, você já está pronto para ser pai (é assim que eu vejo, pelo menos), mas isso varia muito.
Na casa dos vinte, geralmente, vem o diploma.
Com 21, o torcedor do Botafogo comemora um título.
Com 18 se tira carteira de motorista e é possível entrar em qualquer night que role por aí (uhul!).
Dezesseis é a idade média para a perda da virgindade.
Com 15, a menina debuta.
Foram necessários 12 anos para Lula fazer a barba decentemente
Em 10 anos você já acha que é gente.
É preciso 8 anos de mandato para empurrar várias paradas com a barriga.
A cada 4 tem copa do mundo.
Dois anos depois, tem Olimpíadas.
Não foi preciso nem 1 ano para o brasileiro se dar conta de que a "esperança" não ia dar em nada.
Leva 9 meses para se conceber uma nova vida e toda uma trajetória para se criar um filho.
Em 8 meses se faz um brasileirão.
Em 6 se conclui um período universitário.
5 meses o brasileiro trabalha só para pagar impostos.
Em 1 mês se planeja uma viagem.
Na situação atual, leva-se 2 horas no check in do aeroporto.
Uma hora e meia de Porto Alegre a São Paulo.
Por minutos (de sorte) você pode perder um vôo.
Em alguns segundos de completo desespero você se dá conta de o fim é inevitável.
Um piscar de olhos é o suficiente para que toda uma vida seja revista por inteiro diante de 186 pares olhos.
Num único e incontável instante, o colorido se torna preto.

Porém não há tempo que cicatrize a dor da perda de um ente querido em um acidente estúpido, nem a revolta porque em aproximadamente um ano nossas autoridades não tomaram qualquer providência realmente efetiva quanto ao caos aéreo que se estabeleceu neste país, desde que o Legacy colidiu com o vôo Gol 1907. E toda essa negligência é resultado da mentalidade dos nossos políticos, que passam todo seu mandato ocupados em bolar estratégias de como aumentar seus salários, como obterem vantagens, incrementar seus patrimônios, fazer lobby e montarem esquemas para defenderem a si mesmos, quando um eventual escândalo vem à tona.

Quanto tempo mais vamos assistir impassíveis espetáculos como este?

Wednesday, June 20, 2007

Nada Demais

O mundo de hoje é capaz de coisas espetaculares, nunca antes imaginadas. Não sei se é uma questão de avanço da ciência e do pensamento, trazendo a reboque a conseqüente evolução da sociedade, ou se este momento é o resultado coerente da linha de desenvolvimento das relações humanas pós-globalização, portanto sem vinculação científica.

Veja você: na semana passada a maior das pequenas patrícias foi presa sob acusação de dirigir com licença vencida. A herdeira da mega rede de hotéis Hilton, dizem, dividindo a cela com presas comuns e privada de utilizar seus cremes hidratantes para pele e camisolas de seda paquistanesa. Após uma série de eventos, que incluíram ataque de nervos, libertação para cumprimento de pena em prisão domiciliar e manifestação virtual popular contrária a tal decisão judicial, Paris Hilton – a Narcisa Tamborindeguy Worldwide - foi reconduzida ao xilindró onde, segundo a jornalista Mariana Sangalo Trevisan, permanece encarcerada sob olhar atento da imprensa internacional e dos policiais que, certamente, esperam mais um de seus acessos, no qual ela escolha um deles para manter relações e novamente jogar na lama o nome da família.

Não se surpreenda se por todo o mundo você encontrar patricinhas desfilando vestidos e terninhos zebrados, assinados por Versacci, Armani, Gucci, Rauph Lauren, dentro desse “novo conceito estético que expressa os tempos atuais, onde é forte o conflito entre o desejo de liberdade e tudo o que deve ser aprisionado para que essa libertação aconteça de forma plena, segundo a pós-modernidade em contexto de hiperglobalização do indivíduo enquanto ser e enquanto todo”. Não se surpreenda também se esses tempos de conectividade, interatividade, capitalismo selvagem e estímulo institucionalizado à invasão de privacidade que deram corpo e sucesso aos reality shows, produza o primeiro programa do gênero que acompanha a vida de uma socialite presidiária e seus dramas de convivência com esse novo universo.

E todo esse esforço, todo esse foco sobre Paris, toda sua legião de fãs e seguidores ao redor do mundo, tudo isso tem uma razão de ser. Só os radicais não vêem que ela é a principal responsável pelo... Ah... Err... Porque ela conduz... bem... porque suas palavras... As jovens seguem sua conduta, ela é um ícone porque, assim como Gisele Bündchen, representa...

É exatamente esse o ponto. Ela representa o nada. Paris Hilton é o principal ícone do vácuo referencial que caracteriza esses pobres tempos - superficiais e marcados pelo signo de uma transitoriedade que impede o estreitar de relações entre o interessado e o objeto de interesse e que, portanto, não promove vínculos ou se aprofunda. Ela é o mito que só figura. Justo por isso, talvez, ela represente, anos depois da morte de Andy Warhol, um motivo de caracterização e representação mais perfeito do que Marilyn conseguiu ser, por ter, por detrás de todo o fenômeno construído, um conteúdo que o justificava. Paris é mais um simulacro do também falecido Jean Baudrillard. Ou seja, Paris Hilton é uma mera gravidez psicológica.

É isso que eu dizia ser o mais espetacular dos dias de hoje: fazer o nada representar tanto.

E na real, eu nem sei por que estou falando nisso.

Wednesday, June 06, 2007

28

... anos se passaram desde o dia em que a senhora minha mãe estribuchava numa maternidade da Tijuca, fazendo uma força danada para nascer o pequeno estrupício que eu era. Na época, ela sonhava com um futuro próspero para seu rebento. Um fututo sem excessos, mas absolutamente estável e seguro.

Assim, ao longo de toda a minha vida, rolou uma verdadeira campanha de imersão 24h para que, em primeiro lugar, eu estudasse (afinal de contas, o meu conhecimento é o único bem que jamais ninguém pode me tirar), fizesse uma faculdade (federal) e garantisse vaga no funcionalismo público para nunca ter que esquentar a minha cabeça com os famosos passaralhos, característicos da iniciativa privada.

Porém, reconheço, os sonhos e rebeldia da juventude me fizeram seguir as palavras mais repetidas por jovens adolescentes em vias de escolher seu caminho profissional: eu vou trabalhar com algo que me dê prazer, que eu goste, com o qual eu me identifique e que realize meus sonhos. Hoje, formado e trabalhando, me pergunto quem foi o corno que inventou essa bravata?! Provavelmente algum idiota cheio da bufunfa, em uma desocupada tarde de terça-feira, após o seu jogo de gamão com patriarca dos Albuquerque Cavalcanti e Silva.

Hoje, pensando no sentido prático da vida, vejo que prazer a gente busca no sexo. No trabalho, a gente consegue (ou deveria) dinheiro e aí me recordo de outras palavras estúpidas, provavelmente proferidas em primeira mão por um outro playboy cheio da nota: Dinheiro não traz felicidade. Pra quem?! Beleza, até concordo, mas pô... prefiro ser um deprimido rico e cheio de condição para torrar grana em futilidades mil do que um triste pobre, que, além de tudo, tem ainda 28 problemas a mais com o que se preocupar.

Porém o emprego ideal para mim hoje, aquele que eu considero a menina dos meus olhos me foi vetado antes mesmo de eu ter qualquer vestígio de opinião crítica. Eu acredito que o pertencimento ao meio que desejo é conquistado antes mesmo do nascimento, é preciso ter berço, um histórico familiar, uma trajetória marcante, senão você não vence. O sujeito será um estranho e o isolamento é sempre a pior situação que um ser humano pode vivenciar. Então, como fui privado desse direito, só posso projetar essa vida dos meus filhos, começar a montar as condições necessárias para sua chegada e iniciação profissional e torcer para que eles entendam aquilo que eu não entendi. Por isso, já decidi. Vou me separar da minha mulher e ter meus filhos com uma garota de programa.

Assim, meu filho poderá ter um emprego que lhe dará total estabilidade. Que lhe permitirá ter controle sobre seu alto salário, aumentando em pelo menos 28% seu valor quando bem entender. Que cobrirá seus gastos de viagem de férias, em nome de suas funções profissionais. Que não lhe exigirá exclusividade de funções, de modo que ele possa conseguir trabalhos free-lancers no ramo de venda de influência, afinal, é sempre importante incrementar o seu "pobre" orçamento. Que dará abertura para que lobistas paguem as pensões alimentícias de suas futuras ex-esposas e banquem noitadas com prostitutas como um dia fora a sua mãe. E que, por fim, lhe dará imunidade jurídica e contatos fortes para que, em caso de alguma irregularidade, tudo seja jogado para debaixo dos panos do esquecimento e nada da maior gravidade lhe aconteça.

Só sendo muito filho da puta.

Wednesday, May 30, 2007

Maior que as pernas

Não sei bem como começou. A primeira vez que fiz, que eu me lembre, foi no colégio.

Eu não conseguia entender de maneira alguma aquelas contas, aqueles números rabiscados no quadro negro. As aulas se tornavam uma tortura diária. No final do mês, chegava o boletim, horrível, com a nota quatro brilhando e ofuscando completamente as outras ao seu redor.

Posso descrever a sensação da época em detalhes. Não é muito diferente do que acontece hoje. O frio na barriga parece crescer e se torna um abismo cada vez mais próximo de meus pés. A boca fica seca, nada a ver com sede, é como se toda água de meu corpo fosse bebida com gosto por alguma criatura maligna. Uma força absurda se manifesta, se espalha até meus pés e ali fica, como se eu pudesse saltar até às nuvens.

Então, sem que eu pense muito, me vejo correndo. E corro, corro, corro... as pernas praticamente se tornam meu tapete mágico, me levando para lugares que desconheço, sem que eu tenha qualquer controle quanto a direção a ser tomada.

A situação foi se repetindo, aconteceu no vestibular para Direito, onde perdi três anos tentando entrar, até optar por uma universidade que apenas pedia que eu pagasse a matrícula para ganhar a vaga. Não me entenda mal, não sou uma pessoa estúpida, mas ao sinal da menor dificuldade, ao invés de forçar meu cérebro a trabalhar contra isso, via esse mesmo impulso transferido para minhas pernas. E novamente quilômetros de lenta agonia e êxtase, até parar, exausto, muitas vezes em outras cidades.

Tentei aproveitar esse dom maldito. Me inscrevi em maratonas e, devido a meu excelente e involuntário condicionamento físico, disparava na frente. No entanto, bastava alguém se aproximar para o velho mal se manifestar. Perdia completamente o controle e saia do trajeto previsto, com minhas pernas me levando para lugares isolados, longe de qualquer ameaça.

Por três vezes tentei me casar. Cheguei perto de conseguir. Nas duas primeiras vezes, bastou que eu vestisse o terno para que a locomotiva do medo entrasse em ação. Devo ser a única pessoa do mundo a passar o dia inteiro do próprio casamento correndo. Na terceira vez, controlei o demônio maratonista com muito sacrifício e a ajuda de alguns amigos. Com anestesia local nas pernas, foi fisicamente impossível fugir. Calculamos tudo para que eu estivesse recuperado uns 15 minutos antes da cerimônia. Esquecemos do principal. A caminhada até o altar transformou-se em evento atlético que se estendeu até às 6h do dia seguinte.

Com muito custo, me formei após nove anos de faculdade. Obviamente, não estive presente na entrega dos diplomas. Como advogado, era brilhante nos bastidores, poderia livrar, em tese, a cara de qualquer um que defendesse com facilidade. Mas na hora de encarar o júri, o juiz e a promotoria, a tragédia jamais me dava trégua. Eu disparava para fora do tribunal, derrubando inclusive alguns seguranças pelo caminho. Graças a esse comportamento bizarro, como punição, vários juízes me colocaram na cadeia por alguns dias.

Conformado, decidi trabalhar cercado por quatro paredes apenas. Fiz minha fortuna como consultor jurídico de grandes corporações, ajudando-as, ironia das ironias, a fugir dos seus maiores problemas. Minha doença jamais me abandonou e foi se manifestando cada vez mais, ao menor sinal de perigo. Aconteceu em supermercado, bancos, na academia e até em pleno trânsito. Fui me tornando sozinho e distante da vida em sociedade.

Na última semana pensava ter encontrado a solução. Sem alimentar meu corpo por cinco dias, corri pela primeira vez voluntariamente. Queria ver como minhas pernas iriam fugir de si próprias, de sua própria destruição, talvez um confronto tão violento me livrasse da maldição. Corri até desabar e fui sentindo lentamente o calor desaparecer de meu corpo, cercado por pessoas que nunca tinha visto na vida. Minha tragédia enfim mostrou sua cara, mas preveria ter permanecido em minha triste ignorância. Nesses anos todos, minhas pernas foram meros instrumentos da covardia de meu espírito. E agora, finalmente, ele correria para sempre, sem que eu nada pudesse fazer a respeito.

Tuesday, May 22, 2007

Sobrenomes

- Então você deve conhecer o Rubens, lembra? Aquele cara famoso na cidade por ter roubado a peruca do prefeito?
- Isso! Claro que sim! Até cheguei a estudar com ele uma época...
- Que coisa, quem diria que a gente cresceu na mesma cidade, conhecia as mesmas pessoas, pena que nunca nos cruzamos... Bom, a conversa está ótima, só tenho que pegar seu sobrenome direitinho, sabe como é, a operadora pede tudo em perfeita ordem para emitir o cartão.
- Ah, sim, claro. O sobrenome é Fritsch. Quer que eu soletre?
- Com certeza.
- F de fantasia, R de rio, I de igreja, S de sol, C de céu e H no final.
- Certo, um minutinho e já volto.

Naquele minuto, André analisou todos os possíveis significados para aquelas palavras, auxiliares no ato de tornar clara a identidade de cada uma das letras do complicado sobrenome. Seriam elas, as máscaras escolhidas por Júlia para definir cada letra, o júri que decidiria pelo futuro dessa conversa, até o momento promissora. Nem sempre se chegava tão longe assim, sempre havia outras preliminares, verdadeiros muros de contenção que só eram atravessados com determinada combinação de fatores.

Naquela tarde, o contato telefônico, que começara em tom formal, típico entre dois robôs britânicos, tinha chegado ao descontraído rumo principalmente pela junção harmoniosa de nome, sobrenome, timbre e algo que André gostava de chamar de personalidade vocal, tão presentes em sua interlocutora. E para completar era um sobrenome difícil, impossível de transcrever pela simples audição da soma de suas letras. Uma mulher complexa, sem dúvida. No entanto, nada disso teria força sem um padrão adequado de significação nas letras daquele sobrenome, que por si só dizia ao operador de telemarketing que aquela era uma mulher com cabelos tingidos de loiro, solteira, elegante e, provavelmente, com padrão de vida elevado. O primeiro nome dela, Júlia, não poderia ser outro. Como seria de se esperar, seu tom de voz era dinâmico, a eloqüência mostrava sua energia e a sua memória privilegiada estava comprovada na facilidade com que lembrou de números de diversos documentos sem hesitação. Ela era extremamente amistosa, mas sem ser vulgar. Deveria ter um sorriso lindo.

Diante de perspectivas tão animadoras, ele relutou em fazer a análise fria, mas essencial que sempre fazia em situações como aquela. Quer dizer, nem sempre. Há tempos atrás, André ignorou solenemente quando Isabel Bordignon concedeu ao G máscara bastante duvidosa. G de gangorra, ela disse. Dessa imprudência se arrependia até hoje, aquela foi a relação mais instável e precária que já experimentara. O pressuposto para que ela estivesse bem era vê-lo mal. Adorava-o ver de cima, majestosa e fazê-lo sentir-se o último dos seres.

Outra vez foi um mísero C. Mesmo com R de romance, E de Europa e L de limpeza, tudo foi abaixo com o maldito C. Fernanda Ciarelli vestiu o C com a perigosa palavra cachorro. E assim foi: a imagem de Nandinha sobre o universo masculino era tão carregada de desconfiança e ódio que André foi obrigado a deixar de andar com amigas, conhecidas e até mesmo primas. Por fim, terminou tudo antes que Fernanda sentisse ciúme de si própria.

Dessa vez não cometeria esse erro. Não pode se esperar muita coisa de quem tem um H no final do nome. Tão previsível, tão inútil. É uma letra quase sem máscaras, tanto que Júlia nem se dava ao trabalho de utilizar uma para identificar sua presença inconfundível. Se ao menos tivesse dito H de humanidade. Mas aí também estaria denunciando falta de inteligência ao não perceber quão supérfluos são quaisquer acessórios que definam essa letrinha medíocre, sem sequer sonoridade própria.

- Infelizmente, senhora, seu cadastro não foi aprovado, tenha um bom dia.
- Espera, espera, André! O que foi que houve!?

Telefone no gancho, os olhos correm em busca de sobrenomes que valham a pena. Beatriz Sulchevskida brilha na lista.

Friday, May 04, 2007

O Rei

O Rei andava incomodado. Sua vida era agora literalmente um livro aberto. Um fedelho metido a jornalista, após 15 anos à sua volta, remexendo detalhes do seu passado, enfim lançava a biografia real. Ninguém pedira ao Rei autorização para contar sua história. E o Rei tinha dificultado essa empreitada ao máximo. Na década e meia de pesquisa feita pelo incansável admirador, o Rei ignorara sua insistência plebéia com rigor típico das mais refinadas dinastias. Nesse tempo todo, não havia se preocupado nem mesmo em olhar para a insignificante criatura.

No entanto, a corte real, não vendo mal algum em contar a trajetória gloriosa do Rei, abasteceu o livro em gestação. O próprio Rei acabou revelando alguns detalhes, em diversas declarações dadas em épocas remotas, a outros jornalistas mais comportados. Mesmo com tantos empecilhos ao seu trabalho, o fascínio do jovenzinho repórter pelo Rei só aumentava. Tinha toda a obra cultural do Rei devidamente guardada. Colecionava tudo que envolvia seu ídolo. Recortava e arquivava entrevistas, fotos e mini-biografias feitas por revistas.

Ninguém poderia fazer algo assim e ainda sair impune. O Rei precisava manter sua aura. Era um Rei como jamais houve. Seus feitos trouxeram uma nova era. Proibiu em sua terra o uso do marrom, aquela cor maldita, a favorita do próprio demônio. Fez todos os seus súditos abolirem palavras negativas. Alterou e deixou de executar parte de sua própria obra, a fim de corrigir equívocos que poderiam incentivar a libertinagem e outros maus hábitos. Sacrificou a qualidade de cada canção sua, adotando a temática mais patética possível, para assim tornar sua mensagem popular entre os intelectualmente menos privilegiados daquele reino perfeito. Agora não seria diferente. Para restaurar a harmonia em seu mundo, mostraria mais uma vez sua sabedoria e tiraria de circulação aquela obra profana.

Ninguém poderia relembrar agora, justo quando consolidava sua imagem de Rei, dos atos rebeldes daquele outrora plebeu atrevido. Aquele moleque conquistava as mulheres mais desejadas da nação, decidia brigas no braço e varava as noites compondo melodias e letras cheias de atrevimento. Sua presença de espírito era contagiante, cativava qualquer que estivesse por perto. Esse não poderia ser um Rei. Uma pessoa assim não passava de um plebeu colecionador de amigos e fãs. E destes, o tal jornalista insistia em ser um dos mais ardorosos. Um Rei não pode se rebaixar assim, um Rei não precisa de amizades, um Rei se limita a acumular súditos.

Tuesday, April 24, 2007

Questão de didática

Segundo Lula, “é melhor transportar aluno do que Fernandinho Beira-Mar”. A frase saiu em meio a discurso realizado em Brasília. O presidente refutou a proposta de redução da maioridade penal e alegou ser mais barato construir escolas do que presídios. Lula defendeu ainda investimentos em educação, finalizando que as crianças precisam de oportunidade, carinho e amor. Não esqueceu de reforçar a promessa de equipar todas as escolas públicas do país com computador e internet. A eloqüência do presidente incluiu ainda ironias como: “então, vamos começar a punir as crianças desde já, antes que virem bandidos”.

Com certeza é mais barato construir escolas no Brasil do que presídios. Não poderia ser diferente. O ensino público brasileiro é um dos piores do mundo. A maioria dos alunos chega ao final do Ensino Fundamental sem a compreensão do que lê, ou seja, com idades por volta dos 14 anos são analfabetos funcionais. Manter e inchar um sistema de tão baixa qualidade não deve custar muito.

Por outro lado, presídios continuam entupidos de gente, com métodos didáticos muito mais eficientes do que a rede de ensino público brasileira, capazes de transformar qualquer ladrão de galinhas em bandido de alta periculosidade. Chamar isso de prisão é exagero. O Brasil já conta com uma população de meio milhão de foragidos. Está mais do que provada a ineficácia das jaulas brasileiras.

Falar de oportunidade, carinho e amor pra esses filhos do descaso chega a ser deboche. Pensar que o ensino público vai garantir o futuro dessas crianças é puro populismo. É burrice encher de computadores escolas que pagam salários de fome a professores que mal sabem ligar essas máquinas. Assim como é ignorar que desde já essa geração de miseráveis está sendo punida. Não com a cadeia e sim com a certeza de que a escola pública brasileira não só não tem forças para mudar esse destino trágico, como também é parte essencial do problema.

Tuesday, April 17, 2007

Argumentos

Talvez só alguma baixaria em tempos de Big Brother dê mais audiência do que a causa do aquecimento global. Subitamente, as pessoas ficaram boazinhas com o planeta até então confundido com lata de lixo. Multinacionais compensam o estrago que fazem plantando árvores. Combustíveis alternativos, como o álcool, se tornam bandeira de salvação. Desfiles de moda lançam coleções inteiramente feitas com material reciclado.

Isso não é ruim. Mas a tese que sustenta tanta boa vontade é fraca. Até agora, o principal argumento é que nossa espécie está ameaçada com essa história toda. Provavelmente está.

Na verdade, essa preocupação surgiu por motivos mais escusos. Com o calorão crescente, bons negócios estão em risco. Simples assim. É questão econômica. Não ambiental, moral ou científica.

Essa mania de apelar para a consciência do ser humano até funciona, mas por pouco tempo. Questões assim precisam ser encaradas da maneira mais efetiva. Basta apelar para o que move pessoas capazes de fazer algo relevante para mudar situações como essa, sejam elas dotadas de senso moral ou não.

Por isso, mesmo diante do pavor diante do termômetro, não consigo ter maiores temores. O aquecimento global não causa apenas a destruição de ecossistemas, sofrimento de populações costeiras ou verões insuportáveis. Aquecimento global causa prejuízos e isso sim é inadmissível para qualquer homo sapiens.

Wednesday, March 28, 2007

Canções

Sempre há algo de triste quando se compõe para alguém. Diferente de uma fotografia, por exemplo, uma canção não desbota. Não há como rasgá-la. Você não pode nem mesmo jogá-la em uma velha caixa de sapatos. Aquela melodia vai te assaltar no meio da mais banal de suas atividades. Na curta ponte entre vigília e sono, vai despertar em você cheiros, imagens e até promessas de um futuro impossível.

De alguma forma, essa consciência está ali desde o primeiro acorde. Deveria exigir décadas de reflexão, mas a coisa toda é de uma beleza tal que você simplesmente não questiona quando seus dedos e sua voz começam a escolher aqueles caminhos sem volta.

É uma decisão perigosa musicar sentimentos para alguém. Tudo que você é está condensado naquele momento. É pura embriaguez de alma. As represas dos sentimentos desabam, o que flui não molha, apenas devora como o fogo tudo que encontra pela frente. A pessoa amada nunca seria capaz de compreender.

Compor é firmar uma aliança muito mais poderosa do que aquela que se coloca no dedo. A sua própria lembrança se torna discriminatória. Passa a abrigar somente as mulheres melodiosas. Nesse caminho, muitas poderão render boas músicas. No entanto, poucas delas, talvez apenas uma, será dona de uma canção.

O sentimento vai desaparecer, junto com os bons momentos, os risos, os mistérios do corpo outrora idolatrado. Inicialmente, será tudo soterrado pela mágoa. No entanto, de alguma forma tudo isso sobreviverá, mas a partir daí pulsará sem força, fadado a desaparecer no momento errado. Nessa hora, aquela canção vai invadir sua mente. Então você descobrirá o que é a verdadeira tristeza. As melodias nunca vão sumir.

Apenas vão deixar de significar algo para você.

Wednesday, March 21, 2007

Um homem de palavra

Bush está cumprindo sua palavra. Ao custo de 290 bilhões de dólares, o governo devastou completamente o Iraque. A exportação de tâmaras e petróleo, fontes principais de divisas do país, foi reduzida a nada. Graças a isso, o período de ocupação tem sido marcado por constantes crises na indústria petrolífera.

A infra-estrutura do país é mínima. Não há luz e água durante boa parte do dia em quase todo o país. Os gastos militares continuam a aumentar, serão 624 bilhões apenas em 2008.

Outros números também impressionam, cerca de 66 mil iraquianos foram mortos. Entre eles, mulheres, crianças e outros civis que nada têm a ver com a tal Guerra ao Terror. Mais de 3 mil soldados americanos foram mortos no Iraque desde a invasão. Não pense que isso aconteceu na cinematográfica ação militar contra Saddam e seu poderoso exército de desnutridos. Não, 90% dessas mortes ocorreram durante a celebrada redemocratização do país.

Em casa, o Partido Republicano perdeu a maioria. O nível de governabilidade é cada vez menor. Um Tribunal Internacional pretende processar o casal pólvora, Bush e Blair, pelos crimes cometidos no Iraque. O apoio ao governo Bush é o menor desde o início de seu mandato. Os gastos com a manutenção de tropas no Afeganistão e no Iraque já começam a emperrar a locomotiva americana, tornando inviável qualquer confronto em outros fronts.

A paranóia com segurança continua. Tente embarcar pros EUA com uma barba à Los Hermanos. Guantanámo pra você na certa. Bin Laden continua solto, não há nem sinal de seus passos. O anti-americanismo nunca foi tão grande. Manifestações explodem a todo momento, inclusive em território gringo. Os pais americanos temem um novo Vietnã. Motivos não faltam, Bush pretende aumentar o efetivo no Iraque.

No aniversário de quatro anos da invasão ao Iraque, Bush mantém sua palavra. É desmontada aos poucos a maior arma de destruição em massa que já houve: seu próprio país. Congratulations, Mr. Bush!